“(…) Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei.” (Fernando Pessoa)
– “Quando tu nasceu?” “A que horas?” E seguiu… Tava quase vendo a hora dela perguntar quantas almas tenho, e quantas personalidades escondo, tal qual a inquietação de Fernando Pessoa. Quando eu já ia questionar qual o objetivo da entrevista, ela interrompe meu pensamento julgador, já armado de ilações meio intrusivas, com um sorridente: – “É pro mapa astral!”. Sorri. Só aceitei meu destino e colaborei com as respostas. Conforme avançava a consulta informal com a jovem astróloga, a curiosidade também acelerava no mesmo ritmo. Meu personagem, de um cético educado e paciente, franziu as sobrancelhas e deixou cair a atuação quando a consulta saiu do percurso prognóstico dos adjetivos rotuladores que encontramos nos sites de fofoca e astrologia barata e foi direto pra uma fenda no universo que até então desconhecia. Enquanto ela lia minhas características conforme meu signo libriano, eu viajava pelos cosmos intergalácticos do ego, era uma deferência melhor que a outra; por um momento, achei que minha vida tava perfeitamente alinhada ao que há de mais refinado no universo; a parte da sobrancelha franzida e ranhuda veio depois do: – “Mas isso é a parte do que os outros veem em ti; vamos praquilo que tu é por dentro, de verdade”. Conforme a leitura corria, eu recuava. Se houvesse um buraco negro por ali, dando bobeira, eu pularia e sairia só ao final da tortura astrológica. Nem parecia mais o mesmo signo. Mas o problema, é que, por pior que isso fosse, ainda parecia ser EU! E isso doeu! Concluiu dizendo que tudo isso se dava porque meu planeta regente era Vênus e outras tantas nuances que me faltam na memória. Por coincidência, foi ontem: parte do país contemplou o alinhamento encantador entre a lua, Vênus e alguns outros planetas. Saí já umas oito da noite pra olhar aquilo que todo mundo tava registrando nas redes. Se me perguntassem o que eu vi, relataria que fora a silhueta luminosa da lua crescente, no poente oeste, acompanhada à noroeste pelo contorno de Vênus. Mas isso é o que o Erivelto que os outros veem talvez dissesse. Mas aprendi, dia desses, com minha jovem astróloga, que há outras facetas nossas escondidas por detrás daquilo que não deixamos que os outros enxerguem. Treinei, então, só pra mim mesmo, ali, entre o alinhamento perfeito que se exibia à minha frente e o silêncio noturno, como que definiria aquilo que eu via, mas de um jeito só meu, mais próximo do que a gente é, de verdade, quando ninguém mais tá vendo. O resultado foi parecido com: “Eita, a lua tá sorrindo, com a boca bem fininha, e Vênus é uma pintinha bem no cantinho do queixo dela”. Li que a distância real, já considerando a conjunção espacial entre a lua e vênus é de quase 200 milhões de quilômetros. E ontem à noite, tudo coube numa foto, num espaço entre os dedos, na nossa galeria, num stories, até na minha definição simples. Uma coisa era o que a gente via, outra coisa era o que era, de verdade, lá em cima, onde ninguém chega, ninguém vai, ninguém toca. Aprendi, sentado na cadeira do consultório informal da astróloga/colega de trabalho, como apreciador do espetáculo noturno no céu de ontem, e, principalmente, comigo mesmo; que há uma diferença interplanetária entre aquilo que permitimos que os outros veem de nós, apreciem, rejeitem ou acolham; e aquilo que de fato nós somos, de verdade, na essência, só pra nós e, com nós mesmos, quando ninguém mais vê. E não é sobre incoerência de personalidade ou aparência fingida, não! É mais sobre o fato de haver em nós, partes que devem ser preservadas sob o anonimato da alma, longe das vistas, flashs, conceitos e distrações alheias. É isso que faz a gente ser a gente. Se quiserem ver em nós beleza, simpatia e graça, tal qual a que vimos rasgar a penumbra escuridão dos céus de ontem, que saibam contemplar aquilo que permitimos que vá à mostra no nosso céu, pra todos virem, e que aprendam, se quiserem, a apreciar o que há de bom no nosso universo pessoal, mesmo que desalinhado, bagunçado, com poeira estelar e imperfeito; mas nosso, só nosso! Talvez o único lugar do universo inteiro onde a gente pode ser a gente, onde vênus pode ser vênus e, onde a lua, além de também poder ser a lua, ainda pode sorrir, lá de cima, só pra nós, com uma pintinha bem no cantinho do queixo.

