Quais gigantes? — Disse Sancho Pança.
— Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas. (…)— Aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas… (Capítulo VIII, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes)
Moinhos de vento: gigantes impiedosos! Dom Quixote vivia a confundir a ficção com a realidade. Incansavelmente, buscava travar batalhas com personagens que só existiam na sua cabeça. Bem lá dentro. Na imaginação! Foi nesse último sábado, após uma ida ao shopping próximo ao hotel onde um grupo de amigos tava hospedado. Contei 7! E ainda hesitei, em tom de brincadeira: “São 20?”. Mas entrei! Umas quatro teclas de andares diferentes, muita risada e… TRAVOU! Nunca fui fã de uma caixa de metal pendurada num vão suspenso de um corredor vertical de uns 30 metros, ainda mais com 8 pessoas dividindo cada libra de ar. Ainda não tinha um: “Eu vou morrer! ”, mas um recolhido: “Porque eu entrei?” Ah, isso já! Tentava fingir postura. Afinal, enquanto houvesse luz e ventilação, tudo bem! Sabe o: “Eu vou morrer? ”, pois bem, veio logo depois que a luz e a ventilação desligaram. Nunca puxei ar com tanta força. Era como se fosse o último. Todo o riso deu lugar ao silêncio. O barulho que se ouvia agora era só do assobio nasal de cada um que inspirava a própria sobrevivência nos 3m² de esperança. Não posso relatar tudo que pensei enquanto ameaçava uma despedida boba. Confesso que o primeiro pensamento foi: “Tenho tanta coisa por resolver lá fora. ” “Tanta coisa por dizer. ” “Por fazer…” “Tudo LÁ FORA!”. Acho que todos ali dentro também devem ter tido seu momento de Dom Quixote, de travamento de batalha com seus gigantes interiores. No final, o elevador foi reiniciado. Desceu. Houve reza nos degraus. Subida de escada e até quem não desse um PIU à noite toda. No dia seguinte, sozinho, eu teria de fazer uma escolha. Ainda flertei com o corrimão e seus 5 andares. Mas dei meia volta. Apertei o T e desci. Sabia que, se pusesse os pés no primeiro degrau, talvez vivesse pra sempre à mercê deles: PRESO FORA DO ELEVADOR! Percebi, com isso, que nossas principais batalhas não estão lá fora, como D. Quixote, a forçar lutas com gigantes fantasiados de moinhos. O perigoso gigante habitava era a mente dele… Algumas batalhas a gente vence evitando. Outras, lutando. Outras, lá fora. Outras, em 3m²… e tantas outras, de tantas outras maneiras. Mas, tudo começa a dar certo mesmo, é quando encaramos, lutamos e vencemos as principais delas, as GIGANTES de verdade: AS DO LADO DE DENTRO!

