ARTIGO – Quando a força vira regra: a Venezuela como alerta à América Latina

O ataque ordenado pelo presidente dos Donald Trump contra a Venezuela, sem respaldo explícito de organismos multilaterais e sem justificativa internacionalmente validada, escancara um problema que vai muito além do território venezuelano. O que se impõe, mais uma vez, é a lógica da força acima do direito — e isso tem consequências diretas para toda a América Latina.

A história recente mostra que intervenções militares lideradas pelos Estados Unidos raramente se limitam aos argumentos oficiais que as sustentam. Em nome da “democracia”, da “segurança” ou do “combate a ameaças”, países inteiros foram devastados, governos derrubados e regiões inteiras mergulhadas em instabilidade permanente. A Venezuela, agora, entra novamente nesse tabuleiro geopolítico como palco de demonstração de poder — não como exceção, mas como mensagem.

Para o Brasil, o sinal é especialmente preocupante. O temor manifestado pelo Itamaraty não é retórico. Quando uma potência global decide agir unilateralmente em um país vizinho, cria-se um precedente perigoso: o de que fronteiras, soberania e autodeterminação tornam-se conceitos flexíveis, ajustáveis à conveniência estratégica de quem detém poder militar. Hoje é a Venezuela. Amanhã, qualquer outro país que passe a ser visto como “problema”.

O silêncio ou a fragilidade das reações internacionais reforçam essa lógica. Quando não há consequência política real, a mensagem é clara: pode-se agir, atacar, avançar — e depois explicar. Ou nem isso. O intervalo entre o ataque e a tentativa de justificativa revela uma inversão preocupante da ordem global: primeiro se usa a força; depois, se constrói a narrativa.

Na América Latina, esse tipo de ação reacende fantasmas históricos. Golpes, intervenções, bloqueios econômicos e ingerências externas sempre tiveram impactos duradouros na região. Instabilidade política, crises migratórias, colapsos econômicos e radicalização social não ficam confinados dentro das fronteiras de um único país. Espalham-se. Contaminam. Chegam aos vizinhos.

Para o Brasil, isso significa risco direto à segurança regional, pressão sobre fronteiras, impactos diplomáticos e um desafio estratégico: aceitar passivamente que uma potência atue como árbitro global, ou defender, de forma clara, o princípio da soberania nacional e do respeito entre Estados. Não se trata de defender governos, mas de defender regras mínimas de convivência internacional.

Quando um país se coloca, na prática, como “dono do mundo”, o problema não é apenas quem está sendo atacado agora — é quem pode ser o próximo. E a história mostra que, nesse jogo, justificativas sempre aparecem. O que falta, quase sempre, é limite.

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