*Por Valterlucio Bessa Campelo
A campanha da governadora Mailza Assis, ou ela mesma, resolveu não ir a debates com seu opositor, Alan Rick. Uma postura já ensaiada no primeiro turno das eleições, quando faltou a um deles em cima da hora, deixando a imprensa com as perguntas na mão e o cenário incompleto.
É por todos os ângulos de análise, lamentável. Explico. A postura de abandonar um debate pode ser interpretada e instrumentalizada de diversas formas pelo meio social, e quando envolve uma mulher saindo de uma discussão com um homem, costuma reforçar estereótipos e preconceitos de gênero de várias maneiras específicas:
1. Validação do estereótipo da “irracionalidade” ou “fragilidade” – um dos preconceitos históricos mais comuns contra as mulheres dão a ideia errônea de que elas agiriam puramente pela emoção, em contraste com uma suposta “racionalidade” masculina. Quando uma mulher se retira de um debate, seus críticos acham razão para argumentar que ela não teve capacidade intelectual, controle emocional ou argumentos para sustentar sua posição.
2. Deslegitimação da voz e da autoridade feminina – em ambientes de discussão pública a liderança e a autoridade das mulheres, a desistência pode ser usada para rotular a mulher como inapta para o espaço público, para a política ou para cargos de liderança, alimentando o discurso machista de que “aquele não era o lugar dela”.
3. Generalização para o grupo – a atitude fugidia de uma mulher é frequentemente generalizada para o seu gênero (“mulheres não aguentam a pressão”).
Ora, o debate público costuma ser retratado como a arena onde as ideias se confrontam e a razão se impõe. No entanto, quando uma mulher decide se retirar ou se recusa a participar de um debate com um homem, o julgamento social analisa a decisão reativando e fortalecendo preconceitos de gênero profundamente enraizados na cultura.
Historicamente, o discurso vigente associou os homens ao intelecto, à lógica e à capacidade analí¬tica, enquanto reservava às mulheres o domínio das emoções, do descontrole e da fraqueza. Quando uma mulher se recusa a debater, os setores enviesados da sociedade utilizam o gesto como a “prova” de que ela carece de preparo intelectual, estofo argumentativo ou controle emocional para sustentar suas ideias.
Além de reativar estereótipos morais e comportamentais, a recusa em participar de um debate por parte de quem ocupa ou aspira ocupar um cargo é rapidamente convertida em incapacidade técnica e polí¬tica de governar.
Na dinâmica da gestão pública, o debate não é apenas um evento eleitoral ou promocional, ele é visto como um microcosmo das pressões que um líder enfrentará no exercí¬cio do poder. Por isso, a ausência ou o abandono da discussão pode ser interpretado sob as seguintes marcas de fragilidade institucional:
a) Incapacidade de prestação de contas (accountability) – o dever primário de um governante é responder à sociedade, aos opositores e à imprensa sobre suas escolhas, gastos e políticas públicas. A recusa em debater sinaliza que a liderança não se sente apta ou disposta a prestar contas publicamente, sugerindo falta de transparência ou inconsistência em suas propostas.
b) Demonstração de fraqueza na negociação política – governar exige dialogar e negociar constantemente com setores contrários, parlamentos e grupos de pressão em cenários de alta tensão. A fuga de um confronto direto passa a mensagem de que o governante carece de resiliência, inteligência emocional ou habilidade diplomática para gerir crises e defender os interesses da população sob pressão.
c) Descredibilização da liderança e autoridade – para o eleitorado, a postura de esquiva transmite insegurança em relação ao próprio plano de governo. Se a liderança não consegue sustentar e defender suas diretrizes diante de um adversário no ambiente controlado de um debate, cria-se a percepção de que ela tampouco terá firmeza para conduzir os rumos de um estado diante de grandes desafios reais.
Assim, ao se recusar a enfrentar o contraditório, a figura polí¬tica não apenas alimenta o preconceito de gênero, mas também autoriza a narrativa de que é uma gestora frágil, despreparada e incapaz de exercer com plenitude o papel de governante. A fuga dos debates autoriza a pergunta: Quando for necessário enfrentar uma questão grave, vai sair de cena e fazer uma carreata? Vai chamar o marqueteiro?
Os mais pragmáticos dirão que “quem está na frente não vai a debate”. Este é um cálculo eleitoral imoral, que desrespeita o eleitorado, a imprensa e a sociedade como um todo. É no segundo turno que os candidatos (dois) se livram do tiroteio de oportunistas e, cara a cara, exibe contra o oponente seu portfólio, suas intenções, suas divergências e sua própria capacidade de enfrentamento das questões com as quais vai se deparar no exercício do cargo. Quem é superior prova que é. Escafeder-se, vazar dos debates é apenas fugir de responsabilidades e aceitar o estereótipo de incapacidade.
O que dirá às mulheres (mais da metade do eleitorado) uma que não tem coragem de enfrentar seu adversário e se esconde em manifestações de militância paga? Que exemplo de coragem é esse? É assim que promove o empoderamento feminino? Como pode empunhar a defesa das mulheres pela coragem de denunciar e tudo o mais, se em seu momento faz opção pelo medo paralisante?
Sinto. Nem tanto pelo debate em si mesmo, mas pelo péssimo exemplo e desserviço à causa feminina. Desconfio que a candidata à vice, Jéssica Sales, faria outro movimento. Socorro Neri não fugiria. Mara Rocha não fugiria. Perpétua Almeida não fugiria. Iolanda Fleming não fugiria. Há tempo, governadora, reveja sua posição e vá aos debates, ou ficará marcada pela fuga e dela será lembrada na primeira oportunidade.
** Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP
