Foto: Cedida
A produção nas terras indígenas do Acre nunca foi o principal obstáculo. O desafio sempre esteve no acesso — especialmente ao próprio dinheiro gerado por essa produção. Em regiões onde o deslocamento depende de dias de viagem pelos rios, vender para programas públicos muitas vezes significava enfrentar uma segunda barreira: conseguir receber. É nesse ponto que a nova fase do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), executada pela Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri), tenta romper um ciclo antigo de exclusão.
Com investimento superior a R$ 4 milhões, a iniciativa mantém ações em sete terras indígenas já atendidas e amplia o alcance para uma nova área no município de Jordão, fortalecendo a produção local e a segurança alimentar dentro das próprias comunidades. A estratégia aproveita a estrutura construída anteriormente, com oficinas e organização produtiva já estabelecidas, ao mesmo tempo em que busca alcançar territórios ainda não contemplados, ampliando a presença da política pública em regiões historicamente isoladas.
Um dos principais entraves identificados pela execução anterior foi justamente o acesso ao recurso financeiro. Para muitos produtores indígenas, o pagamento pelas vendas exigia deslocamento até Cruzeiro do Sul, o que, na prática, limitava a participação no programa. Agora, a entrega de cartões diretamente nas comunidades — em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e o Banco do Brasil — permite que os beneficiários realizem transações no próprio município, eliminando a necessidade de viagens longas e custosas.
Segundo o chefe da Divisão de Apoio à Produção Familiar da Seagri, Igor Honorato, o foco é dar continuidade ao trabalho já iniciado e, ao mesmo tempo, avançar sobre novos territórios. A logística, no entanto, segue sendo um dos maiores desafios. As equipes priorizam áreas mais distantes enquanto ainda há navegabilidade nos rios, aproveitando a janela de acesso para realizar entregas, oficinas e iniciar a execução do programa em comunidades de difícil alcance.
Ao integrar produção, acesso ao pagamento e consumo local dentro das próprias aldeias, a nova etapa do PAA tenta ir além da compra de alimentos. A iniciativa reposiciona a presença do Estado em territórios onde ela historicamente chegou de forma limitada — e sinaliza que, mais do que produzir, o desafio na floresta ainda é fazer a política pública chegar inteira até quem precisa.
