Foto: Internet
O acordo comercial provisório entre o Mercosul e a União Europeia deve gerar impactos positivos principalmente para os setores de café, carne de aves, etanol e açúcar, segundo análise do banco BTG Pactual. Esses segmentos concentram o maior potencial de ganhos com a redução gradual das tarifas de importação previstas no entendimento entre os blocos.
O acordo estabelece a eliminação de tarifas para 77% dos produtos agropecuários exportados pelo Mercosul à União Europeia. A redução ocorrerá de forma escalonada, em prazos que variam de quatro a dez anos, conforme o produto. Para o BTG, os benefícios tendem a se materializar no longo prazo, de maneira gradual, à medida que as condições de preço se tornem mais favoráveis e os mercados se ampliem.
Em relatório, os analistas Thiago Duarte e Guilherme Gutilla ressaltam que o acordo ainda depende de ratificação e poderá sofrer ajustes regulatórios. Além disso, o texto prevê um mecanismo bilateral de salvaguarda agrícola, que permite à União Europeia suspender temporariamente tarifas preferenciais caso as importações sejam consideradas prejudiciais aos produtores locais.
Atualmente, o bloco europeu responde por cerca de 15% das exportações brasileiras do agronegócio, com destaque para café, farelo de soja, etanol, milho, soja, arroz, carnes, açúcar e frango.
No caso do café, não foram estabelecidas cotas. As tarifas atuais, de 7,5% para o café torrado e moído e de 9% para o café solúvel, serão eliminadas em até quatro anos. A União Europeia já é o principal destino do café brasileiro, concentrando quase metade dos embarques. A expectativa é de aumento da competitividade do produto nacional no mercado europeu.
Para o diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, Marcos Matos, o acordo tende a estimular novos investimentos europeus na cadeia cafeeira brasileira.
O acordo também prevê cotas com tarifas reduzidas ou zeradas para carnes, embora os volumes sejam considerados limitados. A maior oportunidade está no setor avícola. A cota livre de tarifa começa em 30 mil toneladas e chega a 180 mil toneladas em 2031, o que pode elevar a participação do Mercosul nas importações europeias.
Como o Brasil responde por aproximadamente 90% da produção de frango do bloco, o país deve absorver a maior parte desse volume. As exportações brasileiras de aves para a União Europeia podem crescer cerca de 65% até 2031, segundo o BTG.
Para a carne bovina, foi estabelecida uma cota inicial de 16,5 mil toneladas, com tarifa reduzida, que poderá chegar a 99 mil toneladas até 2031. Apesar do estímulo às exportações, o impacto é considerado restrito, já que a cota representa uma parcela pequena da produção total do Mercosul. Ainda assim, o Brasil tende a se beneficiar dos preços mais elevados pagos pelo mercado europeu.
No caso da carne suína, mesmo com a criação de uma cota de 25 mil toneladas, o impacto esperado é marginal, uma vez que a União Europeia historicamente representa parcela reduzida das exportações brasileiras do produto.
Para o etanol, o acordo cria uma cota de 650 mil toneladas, sendo a maior parte isenta de tarifas. O volume é superior ao que a União Europeia importou do Brasil nos últimos anos, mas, como representa cerca de 4% da produção nacional, o impacto econômico tende a ser limitado.
No açúcar, foi mantida a cota de 180 mil toneladas livres de tarifa. Como os embarques brasileiros já superaram esse volume em anos recentes, o efeito prático também é considerado moderado.
O acordo estabelece ainda uma cota de 60 mil toneladas de arroz isenta de tarifa, a ser implementada em seis anos. O volume equivale a parcela relevante das exportações brasileiras do produto, embora embarques adicionais continuem sujeitos a tarifas elevadas.
Para os grãos, o impacto é reduzido. Soja e farelo de soja já entram no mercado europeu sem tarifas, enquanto o óleo de soja terá redução gradual. No milho, a nova cota livre de tarifa não deve alterar significativamente o fluxo atual, já superior ao volume estabelecido.
De forma geral, o BTG avalia que o acordo amplia oportunidades, mas seus efeitos econômicos serão graduais e concentrados em segmentos específicos do agronegócio brasileiro.
