Foto: Correio online
Há quase duas décadas, a agricultora Cátia Souza todos os dias se direciona para abrir a barraca no Mercado Municipal José Alves de Lima, em Senador Guiomard. Ao lado do marido, Carlos Souza, ela se tornou parte da identidade da feira, que começa a pulsar ainda de madrugada, entre duas e três da manhã, quando os primeiros feirantes chegam para organizar suas mercadorias. O movimento mais forte acontece entre seis e nove horas, quando os clientes fiéis passam para garantir o que precisam.
“Aqui começa cedo. Às vezes duas horas da manhã já tem gente chegando para arrumar as coisas. Os compradores vêm logo às quatro. Depois das nove, fica mais tranquilo”, conta Cátia em conversa com a equipe do Portal Correio Online.

A trajetória da família é marcada pelo esforço e pelas mudanças. No começo, Cátia plantava de tudo: coentro, chicória, cebola. O trabalho pesado, no entanto, deixou marcas irreversíveis. “Era pesado, até hoje acabei com a minha coluna. Estou aqui sem condições de trabalhar, porque acabei a coluna limpando alheira, plantando cebola, chicória, coentro. Tudo eu fazia”, lembra. Sem forças para manter o ritmo, ela passou da produção própria para a revenda, mas nunca deixou a feira. “Hoje em dia eu compro porque não aguento mais trabalhar. Mas continuo na feira porque aqui é a minha vida.”
Carlos acompanhou essa mudança. Ele explica que, durante um tempo, também plantavam, mas chegou um momento em que a escolha foi inevitável: ou plantar ou vender. “Algumas coisas nós produzíamos, mas depois paramos porque não dá pra plantar e vender ao mesmo tempo. Então hoje a gente só compra e revende”, explica. A decisão, no entanto, não abalou a renda da família. “Dá pra suprir as necessidades e comprar mais algumas coisinhas. Dá pra viver.”

Mesmo assim, o casal critica a falta de apoio à agricultura familiar no município. “Pra nós aqui é zero. Não tem apoio nenhum da agricultura. Eles dão mais oportunidade pros pequenos produtores das colônias. Pra quem mora aqui, é quase nada. E ainda assim, o apoio é só o caminhão que busca e deixa. Adubo, calcário, essas coisas, nunca vi”, afirma Carlos.
Cátia acrescenta que as dificuldades também estão dentro do próprio mercado: “Aqui dentro está faltando melhorias. Homens e mulheres se misturam no banheiro, estão fazendo xixi tudo no mesmo local porque o espaço feminino está interditado e até hoje não arrumaram. E aí está ruim pra gente”, desabafa.

Apesar dos gargalos, a feira continua sendo o lugar onde a história deles se renova a cada dia. Cátia herdou a ligação com a agricultura do pai, que trabalhava na colônia. “Meu pai já trabalhava na agricultura, daí veio tudo. Eu continuei.” Para ela, permanecer na feira é também manter viva essa herança. Carlos confirma: “Quando eu conheci a Cátia, ela já estava na feira. A vida dela é aqui.”
Hoje, a barraca do casal é uma das referências do mercado. Entre clientes que chegam cedo, produtos organizados com cuidado e histórias trocadas entre as bancas, eles seguem firmes, acreditando que o espaço é mais do que um ponto de venda: é um lugar de identidade, de tradição e de resistência. “Aqui é o nosso lugar”, resume Cátia, com o olhar de quem já fez da feira muito mais do que um sustento.

