Rio Branco, Acre - quinta-feira, 11 junho, 2026

“A luz está acesa para a pecuária”, diz Geraldo Pereira após veto europeu à carne brasileira

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Exclusão do Brasil da lista de exportadores para a União Europeia preocupa setor produtivo, acende sinal de alerta para novos mercados e amplia debate sobre o futuro da rastreabilidade bovina na Amazônia

A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países habilitados a exportar carne bovina e outros produtos de origem animal para o bloco europeu a partir de 3 de setembro reacendeu preocupações no agronegócio brasileiro e trouxe à tona um debate que ultrapassa as questões sanitárias. Embora o argumento oficial europeu esteja relacionado à comprovação do controle de antimicrobianos utilizados na produção animal, produtores e representantes do setor enxergam um cenário mais amplo, que envolve rastreabilidade bovina, exigências ambientais e acesso aos mercados internacionais.

A medida atinge produtos como carne bovina, carne de aves, pescado, mel e outros itens de origem animal. Segundo a justificativa apresentada pela União Europeia, o Brasil não conseguiu fornecer garantias consideradas suficientes para comprovar o cumprimento integral das novas regras sobre o uso de antimicrobianos na cadeia produtiva. O ponto que chama atenção é que o bloco europeu não apontou contaminação da carne brasileira nem registrou problemas sanitários envolvendo os produtos exportados. A controvérsia está concentrada na documentação e nos mecanismos de comprovação exigidos pelas novas normas.

Os números ajudam a explicar a preocupação do setor. De acordo com dados citados pelo pecuarista acreano Geraldo Pereira, somente em 2025 a União Europeia importou aproximadamente 368 mil toneladas de produtos brasileiros de origem animal, movimentando cerca de US$ 1,8 bilhão. A carne bovina respondeu por aproximadamente 128 mil toneladas, gerando perto de US$ 1 bilhão em receitas.

Apesar de representar uma parcela relativamente pequena da balança comercial brasileira, o mercado europeu é considerado estratégico por remunerar melhor os produtos de maior valor agregado. “O problema não é apenas a União Europeia. Ela é referência para outros mercados exigentes, como Japão e Coreia do Sul. Se esses países passarem a exigir as mesmas explicações, o impacto para a pecuária brasileira pode ser muito maior”, alerta Geraldo Pereira.

Segundo ele, a principal preocupação dos produtores não está apenas na perda das vendas para a Europa, mas no efeito que a decisão pode produzir em outros mercados considerados premium. “De fato, a luz está acesa para a pecuária. Esperamos que o governo brasileiro consiga se explicar a tempo para evitar perdas maiores. A pecuária passou três anos enfrentando prejuízos significativos, agora tenta se recuperar e não suporta novos impactos. Basta observar os índices de inadimplência que existem hoje no setor”, afirma.

Debate sobre rastreabilidade ganha novo capítulo

No Acre e em outros estados da Amazônia, a decisão europeia acabou fortalecendo uma discussão que já vinha crescendo entre produtores, governos e organizações ligadas ao meio ambiente: a rastreabilidade bovina.

A identificação individual dos animais é considerada uma ferramenta importante para o controle sanitário, monitoramento de doenças e abertura de mercados internacionais. Especialistas apontam que a tendência mundial é ampliar cada vez mais as exigências de rastreamento da cadeia produtiva.

Geraldo Pereira afirma que não existe resistência à rastreabilidade quando o objetivo é garantir segurança sanitária. “A rastreabilidade é importante para o controle sanitário dos animais. Ninguém discute isso. O problema é o viés que está sendo dado à ferramenta aqui na Amazônia. Existe uma preocupação de que ela seja utilizada para embargar propriedades, dificultar a comercialização de terras e inviabilizar economicamente produtores rurais”, diz.

O pecuarista argumenta que parte dos produtores teme que as exigências internacionais deixem de se concentrar exclusivamente na saúde animal e passem a incorporar critérios relacionados ao uso da terra e à situação ambiental das propriedades. “Quando nós reclamamos da rastreabilidade, não estamos falando do controle sanitário. Estamos falando do uso que pode ser feito dessas informações. Há receio de que produtores deixem de conseguir comercializar a produção., percam renda e acabem abandonando atividades produtivas. Isso pode gerar consequências negativas para toda a região”, acrescenta.

Amazônia no centro das exigências globais

A preocupação não surge por acaso. Nos últimos anos, a União Europeia e outros grandes compradores internacionais passaram a adotar regras cada vez mais rígidas relacionadas à origem dos produtos agropecuários, combate ao desmatamento e transparência das cadeias produtivas.

Para Pereira, o comércio internacional caminha para um modelo em que exigências sanitárias, ambientais e de rastreabilidade estarão cada vez mais conectadas. Ainda de acordo com o pecuarista, para parte dos produtores da Amazônia, no entanto, o desafio será garantir que essas regras não se transformem em barreiras comerciais capazes de excluir regiões inteiras do mercado.

“Embora os principais frigoríficos habilitados a exportar para a União Europeia estejam concentrados em estados como Mato Grosso do Sul, Goiás, Rondônia e Rio Grande do Sul, o Acre acompanha a situação com atenção. O estado possui um dos maiores rebanhos bovinos da Amazônia Ocidental e participa diretamente das discussões sobre regularização fundiária, rastreabilidade e adequação ambiental”, disse.

Enquanto o governo brasileiro tenta reverter a decisão europeia antes da entrada em vigor das novas regras, o setor produtivo observa os desdobramentos com cautela. Para os produtores, o debate aberto pelo veto vai muito além da exportação de carne. “O debate não pode ser apenas sobre restrições. Precisamos discutir como garantir segurança sanitária, ampliar mercados e manter a competitividade da produção brasileira. O produtor precisa fazer parte dessa construção”, conclui Geraldo Pereira.

Mais do que uma disputa comercial entre Brasil e União Europeia, a decisão expõe uma transformação em curso no comércio global de alimentos. E, para a pecuária da Amazônia, especialmente no Acre, o futuro dessa discussão poderá definir quem terá acesso aos mercados mais exigentes do mundo nas próximas décadas.

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