“Por um momento ele a vê, mas aos poucos ela vai desaparecendo, e apesar de gritar seu nome, ele a perde para sempre” (…)
Os gritos eram de Orfeu, hábil com as palavras e exímio músico. Dizem que encantava até os deuses com o som de sua lira. Quem desapareceu aos poucos foi Eurídice, sua amada. A cena se passa já na porta do céu. E é aí que eu lamento. Se fala que a musa de Orfeu morreu por uma fatalidade e, ele, inconformado com a perda, resolveu apelar a Hades, Deus da morte, para trazer Eurídice de volta. Desceu ao submundo. Ao desconhecido. Apenas uma era a condição do resgate: ” Não olhar para trás” durante a subida. Sabemos. O trecho lá de cima já nos adianta o desfecho. Ele olhou! Ela desapareceu. Ele a perdeu! Já faz alguns dias, quando pediram pra que eu falasse a alguns jovens candidatos a missionários. Confesso que é uma parte da minha vida que eu prefiro guardar na minha gaveta favorita de memórias. Eu era só um menino de 19 anos quando prestei um serviço voluntário por 2 anos no saudoso sertão goiano. E repito. Tá tudo na gaveta. Deixei lá: fotos, cartas, formulários, anotações, diários… tudo que se passsou na minha vida no começo da jornada adulta tá empacotado no vão da gaveta da estante da área de serviço. Eu, assim como Orfeu, não confiando na própria lembrança do que vivera, olhei pra trás. Abri a gaveta. Já fazia uns 10 anos que não mexia naquilo. Foi instantâneo o primeiro espirro. Daí em diante, entrara no submundo de lembranças adormecidas, em busca de resgatar memórias já mortas, de pessoas que agora só existem no meu imaginário afetivo. Me perdi na caverna. Olhei pra trás. Como punição do universo, ou de Hades, que te obriga a olhar sempre pra frente: inflamei a glote, irritei os olhos e obstruí o nariz. Apelei ao antialérgico, à velha bombinha da asma e a uma xícara de chá de hortelã. No dia seguinte, na hora de me dirigir aos jovens, eu quase não tinha voz, e pouco falei, afinal, eu prefiro deixar essa pequena parte de mim na minha gaveta da área de serviço, e, o que não cabe lá, guardo num cantinho que só eu sei. Mas lembro que disse a eles o quão importante fora esse trabalho e como isso impacta até hoje na minha vida e minhas relações. Ah, e também falei da gaveta empoeirada. Mas só um pouco. Bem pouco. Voltei pra casa naquela noite e, agora, com muito mais cuidado, fechei o pacote e o devolvi à gaveta. Quem sabe, daqui a uns dez anos eu não abra de novo. Por enquanto, eu prefiro mesmo deixar ele lá. Demorei uns três dias pra me recuperar da crise alérgica…Sabe, talvez Orfeu não perdeu Eurídice por desconfiança nos deuses do submundo, mas sim, por desconfiança de si mesmo, do que vivera, do que sentira, do rosto que amara e já devia ter de cor cada traço e, mesmo assim, por incapacidade de confiar no que guardara na memória e no coração, olhou pra trás; só pra conferir pela última vez. Ele abriu o pacote da gaveta da área de serviço. Acho que a estória seria bem mais bonita se Orfeu tivesse aceitado o destino dos deuses, tocado sua lira, cantado as canções feitas à Eurides e guardado seu amor em alguma gaveta em meio às notas e lembranças vividas ao invés de descer às profundezas, incerto de si, num perigoso, arriscado e mortal resgate do outro. Até porque, há sentimentos, vivências e memórias que envelhecem melhor quando livres e intocáveis na nossa imaginação, ou no conforto de uma gaveta favorita, do que numa realidade cruel e arriscada, onde são revirados, mexidos e despertados a esmo, quando bate uma necessidade falsa ou uma saudade enganadora. Há coisas na vida da gente que não podem ficar à mostra, expostas na vitrine social ou serem de conhecimento e domínio público. Não, essas devem ficar num lugarzinho quente, seguro, intocáveis, alimentadas, aquecidas e bem vivas na nossa lembrança, como uma parte especial da nossa jornada ou, quem sabe, se preferirmos, guardadas na gaveta. Na nossa gaveta predileta. Aquela que só a gente sabe, só a gente quem mexe: A GAVETA QUE TODO MUNDO TEM.

