Rio Branco, Acre - segunda-feira, 28 setembro, 2026

A eleição admite adversários, não acusações sem responsabilidade

Mailza e Alan

O cientista político Murray Edelman estudou uma habilidade central de quem disputa o poder: escolher a história que o público contará sobre uma eleição. Hannah Arendt, por sua vez, alertou para a facilidade com que a política troca a realidade por uma imagem construída para ocupar seu lugar. As duas ideias ajudam a entender por que a propaganda de Mailza Assis com o funcionário da Latam merece atenção. O que está em jogo não é apenas uma discussão no aeroporto. É a tentativa de fazer dessa discussão a imagem pela qual o eleitor enxergará Alan Rick na hora de votar.

A campanha da governadora foi buscar um episódio de anos atrás, conhecido publicamente e pelo qual Alan pediu desculpas, para apresentá-lo na reta final como uma ferida aberta à espera de julgamento. Há algo de sorrateiro nessa escolha. Ela retira o episódio do tempo em que aconteceu, deixa à margem a reação que Alan teve depois e o devolve ao público com a urgência de uma notícia nova. Não se pede ao eleitor que conheça a história; pede-se que sinta indignação diante da versão preparada para aquele momento.

E a versão apresentada vai muito além da discussão no aeroporto. O funcionário afirma que Alan tentou agredi-lo fisicamente. Também atribui ao episódio a perda de seus sonhos e do amor pela profissão. São palavras de enorme peso. “Tentativa de agressão” não é um detalhe a acrescentar a um vídeo antigo. “Acabou com a minha vida”, na forma como a campanha conduz o relato, não é uma frase que possa ser lançada contra alguém sem responsabilidade pelas consequências.

Se houve uma tentativa de agressão física, por que essa acusação ganha destaque público somente agora? Existe registro da época, testemunha ou imagem que a sustente? O vídeo conhecido não mostra essa tentativa. A ausência da cena não prova que nada ocorreu fora da gravação. Mas tampouco permite que a campanha use as imagens como se elas comprovassem a acusação mais grave do depoimento. Perguntar é indispensável quando a afirmação pode definir a imagem de um candidato às vésperas do voto.

A comparação com o questionamento de Alan sobre o diploma de Mailza ajuda a estabelecer o critério — e o critério deve valer para todos. Alan apontou informações de escolaridade apresentadas em eleições diferentes e pediu à instituição de ensino documentos sobre matrícula, frequência e conclusão do curso. Essas divergências não provam, por si, que o diploma seja irregular. Mas indicam quais documentos podem confirmar ou afastar a suspeita. Uma acusação responsável se expõe à verificação. Não exige que o eleitor aceite uma conclusão apenas porque ela foi dita com convicção.

A responsabilidade de Mailza é maior do que a de simplesmente ter cedido espaço a um depoimento. Foi sua campanha que decidiu usar aquela história para pedir votos. Ao fazer isso, assumiu o dever de distinguir a discussão que todos viram das acusações que surgem agora. A palavra do funcionário merece ser ouvida; o eleitor também merece saber em que ela se apoia. Transformar uma experiência pessoal em sentença política, sem oferecer essa distinção, é uma escolha da candidata.

Edelman ajuda a perceber o resultado: constrói-se um personagem para que ele ocupe o lugar do adversário real. Arendt ajuda a identificar o custo: quando uma imagem basta para encerrar as perguntas, a opinião do eleitor deixa de repousar sobre fatos que ele pode examinar. O risco não se limita a Alan Rick. Se qualquer campanha puder retirar um episódio antigo de seu contexto, acrescentar acusações graves e entregá-las como verdade acabada na última semana, amanhã o mesmo método poderá ser usado contra qualquer pessoa.

O confronto faz parte da eleição. Cobrar explicações, investigar documentos e expor erros também. Mas a disputa pelo governo do Acre não autoriza tratar palavras como armas sem compromisso com o que elas podem demonstrar.

Quem pede a confiança do eleitor para governar o Acre não pode tratar uma acusação como recurso de campanha e a verdade como detalhe a esclarecer depois da eleição.

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