Rio Branco, Acre - domingo, 15 março, 2026

11º Fórum Parlamentar do BRICS é aberto com promessas de integração

Foto Divulgação

Com pompa diplomática, discursos otimistas e uma plateia recheada de autoridades de 15 países, foi aberta nesta terça-feira, no Congresso Nacional, a 11ª edição do Fórum Parlamentar do BRICS. O evento, que antecede a Cúpula de Chefes de Estado marcada para julho no Rio de Janeiro, carrega o peso de um novo momento do bloco, ampliado para 11 países e cercado por tensões globais, expectativas econômicas e silêncios estratégicos.

Sob o lema da presidência brasileira — “Fortalecendo a cooperação do Sul Global para uma governança mais inclusiva e sustentável” — o fórum teve início com sessões paralelas sobre saúde global, crise climática, inteligência artificial e desenvolvimento econômico, todas permeadas por uma retórica de união entre os países em desenvolvimento.

Mas por trás dos discursos alinhados, destoam os interesses políticos e os diferentes regimes democráticos dos países membros. O contraste entre democracias parlamentares e regimes autocráticos pairou no ar, mas não ganhou voz nos microfones do plenário.

Mulheres em destaque: entre discursos e invisibilidades

A manhã foi dedicada ao encontro de mulheres parlamentares do BRICS, com paineis sobre protagonismo feminino na economia digital e mudanças climáticas. A ausência de representantes indígenas e quilombolas brasileiras, porém, foi notada por jornalistas e organizações presentes.

Em tom propositivo, parlamentares sul-africanas e indianas denunciaram a exclusão de mulheres das decisões políticas e chamaram a atenção para a urgência de políticas reprodutivas e de cuidado — temas ausentes nas falas brasileiras.

“O BRICS precisa mais do que criar espaços simbólicos para mulheres. Precisa colocá-las no centro das decisões econômicas e climáticas”, disse a deputada indiana Anjali Deshpande, sob aplausos tímidos.

Economia e tecnologia: consensos fáceis, debates difíceis

Nos painéis da tarde, dominados por figuras masculinas, o foco foi na criação de instrumentos financeiros próprios do BRICS, investimentos em IA e propostas para ampliar o uso da moeda local no comércio internacional. O Banco do BRICS, presidido por Dilma Rousseff, foi citado como modelo, embora sem anúncios concretos.

A expectativa de um fundo de inovação tecnológica conjunto esbarrou em divergências quanto à regulação de dados e algoritmos. “Não há como falar de inteligência artificial sem discutir colonialismo digital”, afirmou o senador etíope Yohannes Bekele, em uma das poucas menções às assimetrias geopolíticas do tema.

Um bloco ampliado, mas coeso?

A ampliação do bloco para países como Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos elevou o peso geopolítico do BRICS, mas também aumentou os ruídos internos. Parlamentares da África do Sul e Indonésia defenderam maior institucionalização e regras claras de entrada de novos membros.

“Ou o BRICS se estrutura como bloco com princípios democráticos mínimos, ou se tornará apenas uma feira de interesses econômicos nacionais”, alertou um diplomata brasileiro sob reserva.

O silêncio sobre a Amazônia

Curiosamente, nenhum painel inaugural mencionou de forma direta a Amazônia ou os desafios ambientais brasileiros, mesmo com a grave escalada do desmatamento nas últimas semanas — tema que deve entrar em pauta no terceiro dia do evento, por pressão de parlamentares convidados.

Organizações da sociedade civil protestaram do lado de fora do Congresso com faixas contra o avanço de grandes obras, como a Ferrovia Transoceânica, e alertaram sobre os riscos para terras indígenas. Nenhum representante oficial do governo federal se pronunciou sobre o tema até o fechamento deste texto.

Análise: entre promessas e omissões

A abertura do 11º Fórum Parlamentar do BRICS revelou o que o bloco tem de melhor — diversidade de visões, ambição de autonomia, e capital diplomático acumulado. Mas também escancarou seus limites: a dificuldade em tratar temas espinhosos com a transparência e a urgência que o mundo exige.

O Sul Global parece disposto a criar suas próprias regras, mas ainda hesita em assumir os próprios conflitos.

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