12h de duração, 200 músicas e 20 clipes: como foi camping de produtora do funk
Durante mais de 12 horas, cerca de 100 artistas estiveram na produtora GR6 para criação de mais de 200 músicas e 20 videoclipes. “O PIB do funk está todo aqui”, brincou Ice Blue, integrante do grupo de rap Racionais MCs e conselheiro da empresa.
Realizado na última quarta-feira (20) com o nome de “O Homem Tá Na Casa”, o camping (nome dado a um evento que reúne produtores, compositores e intérpretes para produção de músicas) tinha no convite uma foto de Rodrigo Oliveira, presidente da empresa e que ficou preso durante 28 dias por consequência da Operação Narco Fluxo, que apura suposta ligação de artistas e empresários com uma organização criminosa voltada à lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.
Outros investigados do caso, como Henrique Oliveira, o Rato Love Funk, e MC Ryan SP, estiveram na empresa para acompanhar as músicas que nasciam ali. Além de mostrar como a máquina do funk tem capacidade para produzir música em escala industrial, o evento também serviu como uma espécie de “abraço coletivo” a Rodrigo GR6.
O g1 acompanhou a movimentação a partir das 22h, horário de pico do camping, que começou por volta das 15h na sede da produtora, localizada na Zona Norte de São Paulo.
Flyer do evento “O Homem Está Na Casa”
Divulgação
A GR6 tem como espaço uma casa ampla de três andares, com cerca de 10 estúdios fixos, além de um galpão que é utilizado para produção de videoclipes. Durante o camping, salas de reunião e cabines de ligação se tornaram estúdios improvisados. Ao todo, eram 30 espaços para gravação de músicas.
Estava muito difícil andar pelos corredores da empresa por conta do acúmulo de pessoas (contando a parcela relevante de curiosos e amigos de amigos).
Passaram pelo local funkeiros com longa trajetória, caso de MC Guimê, MC Rodolfinho e MC Livinho, artistas da nova geração, como MC Tuto e MC Joãozinho VT e muitos artistas que buscavam ali uma primeira oportunidade de gravar com seu artista favorito.
Como o elenco da produtora é composto por quase 100% dos principais artistas do gênero, os campings da GR6 eram basicamente uma “festa da firma”. Mas dessa vez foi diferente. A entrada estava liberada para nomes de outras produtoras (caso de nomes como Guimê e Rato).
A decisão de realizar o camping foi tomada pelo próprio Rodrigo na última segunda-feira (18). Isso foi um sinal de que o empresário queria demonstrar que, mesmo com a prisão recente, sua estrutura de trabalho não tinha sido afetada.
Durante o evento, ele passou por todos os estúdios, deu pitacos e fez da sua própria sala um estúdio que abrigou o produtor DJ Oreia e recebeu os principais nomes da noite.
“A máquina que não para”
Todos os estúdios da GR6 estavam preenchidos. Os locais menores, que na verdade eram cabines onde os vendedores de shows fazem e recebem ligações, tinham espaço para um produtor sentado com seu notebook, uma placa de som e, no máximo, dois MCs. Estúdios maiores cabiam até 20 pessoas.
Com mais de 15 anos de carreira e alguns campings na bagagem, o MC Menor da VG explica que aquele era o evento mais lotado que já presenciou – o que traz coisas boas e ruins.
O MC Menor da VG e o empresário Rodrigo Oliveira
Kaique Silva/Divulgação
O lado bom é a oportunidade de improviso e de criar conexão com novos artistas em meio a agendas lotadas.
“A gente está o tempo todo na estrada ou no palco. Aqui, é um momento que você pode esbarrar com alguém e já fazer uma música.”
Cada MC trabalha de uma maneira diferente. Mas, via de regra, a produção funciona da seguinte maneira:
O produtor apresenta uma batida para o MC fazer sua composição baseada naquela melodia;
Com a letra feita, o MC passa a voz e o produtor vai adaptando o beat durante o processo;
Por conta do tempo, não há processo elaborado de masterização ou mixagem.
Dentro de cada estúdio há um representante da GR6 responsável pelo marketing. Esse profissional cataloga todas as faixas prontas e faz um primeiro filtro sobre qual música deve ser prioridade na divulgação.
Todo o trabalho de marketing é feito só após a gravação. E o grande caso de sucesso dos campings é a canção “Mãe Solteira”, de J.Eskine, MC Davi e MC G15, com produção de DG e Batidão Stronda.
Feita durante um evento em 2025, a música virou um dos hits do Carnaval daquele ano. Vídeos na internet mostram como foi todo o processo criativo (desde os produtores apresentando a melodia aos MCs, até o arranjo das composições).
O improviso é a grande “mágica” do ambiente. O g1 presenciou, por exemplo, o momento em que o produtor Yuri Pedrada apresentava para MC GW uma canção que ele produziu com MC Davi e MC Don Juan.
A faixa, que usa como sample a introdução de “Gasolina”, sucesso do porto-riquenho Daddy Yankee, estava pronta, mas Davi sugeriu ali na hora que GW fizesse uma participação. Tudo no improviso.
Mas essa grande massa criativa trabalhada no improviso também gera um enorme volume de… nada. São vozes que servem apenas de guia ou até músicas finalizadas que ficam abaixo do nível do aceitável e são descartadas ao longo dos próximos dias, quando cada faixa é analisada com mais critério.
Além disso, o entra e sai dos estúdios, além da presença de pessoas não identificadas (fãs, integrantes de equipe e tantos outros) fazem com que o ato de gravar se torne uma tarefa árdua.
“Cansei de começar a cantar e aparecer alguém me dando um tapa nas costas, ou gritando meu nome. Não é legal, mas faz parte da magia”, comenta VG.
“Não para de chegar gente”
Um dos fundadores do Racionais, Ice Blue é um homem negro com mais de 1,80m de altura. Ele não passa sem ser notado por aí, ainda mais num evento de música. Abordado para fotos e conselhos, ele vai falando o que gostou mas, principalmente, o que não gostou.
Antes de conversar com a reportagem, ele comenta, por volta das 2h, que não parava de chegar gente. Era uma mistura de preocupação com a noção de que aquele movimento era necessário. Para quem está com um álbum no forno há mais de três anos, o camping é uma escola diferente.
“Eu sou da escola do analógico, onde tudo leva muito mais tempo. A gente mal tinha estúdio para gravar. O funk sempre teve esse ponto single, de lançar várias músicas. Isso não tira o espaço do trabalho mais elaborado, do álbum. São escolas diferentes que se complementam”, diz.
“A gente entende também que essa coisa de encontrar o amigo e gravar uma música é parte da cultura. Não podemos perder essa essência.”
Foi por volta desse horário que MC Ryan SP chegou no local. Sem interagir ou conversar com quem estava nas áreas comuns, foi até a sala da presidência onde encontrou com Rodrigo e representantes da GR6.
Ryan estava no camping não como cantor, mas como empresário, acompanhando os artistas da sua produtora, a Bololô Records. Entre eles: DJ Japa NK e MC Meno K, responsáveis pelo sucesso “Posso Até Não Te Dar Flores”.
A operação da Polícia Federal que, há cerca de um mês atingiu em cheio a maior empresa e o maior artista do segmento, era um não assunto. Artistas e curiosos não tocavam na questão. Era como se os trabalhadores tivessem a obrigação de manter a máquina funcionando. Custe o que custar.
