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Coluna

do Dandão

Pedras, facas e derrota

Por Francisco Dandão
Ando por esses dias mexendo em arquivos antigos de matérias que eu fiz ao longo dos anos. Não tenho todas, que eu sou meio desorganizado. Mas tenho várias e disponibilizo-as na internet, num arquivo aberto, no endereço memoriasdofutebolacreano.com, na medida em que as vou encontrando.
É divertido rever matérias antigas. Tem muita coisa interessante, principalmente no que diz respeito às histórias dos diversos personagens. Se a gente fosse juntar num livro essas histórias, certamente sairia uma coletânea plena de graça. Os casos pitorescos se sucedem, um após o outro.
Casos como o que me foi contado pelo ex-centroavante Vaisquerê, no verão de 2002, quando o visitei na sua cidade natal, Xapuri, outrora havida como a belíssima “Princesinha do Acre”. Na oportunidade, sentamos num banco de frente para o rio e o Vaisquerê foi desfiando as suas memórias.
A história aconteceu em meados da década de 1970, quando a seleção de Xapuri, que contava com um timaço, desde o goleiro Rubinho Santana (talvez o melhor do município em todos os tempos), passando pelo meia Pirruchinha, até o ótimo atacante Mirim, excursionou a Sena Madureira.
Só o deslocamento entre as cidades já dava um volume grosso, tais as dificuldades da estrada que não possuía um único centímetro de asfalto. Foram horas intermináveis de viagem para vencer os pouco mais de 300 km que separam as referidas localidades. E isso sem comer absolutamente nada.
Consta que até havia umas biroscas ao longo do percurso. Mas com valores tão abusivos que chegava a dar dor de barriga quando se perguntava o preço. Um ovo cozido, com pão, manteiga e café, por exemplo, custava mais do que um rodízio de carnes nobres num restaurante de Rio Branco.
A seleção de Xapuri era temida. O time era ajustadinho. Todo mundo sabia jogar bola. Tanto que passou anos invicta em seu estádio. E por ser assim, vivia sendo convidada para amistosos com times da capital e seleções de cidades vizinhas. Ganhar da seleção de Xapuri era uma grande façanha.
Mas havia uma determinação: não golear ninguém quando jogasse fora de casa, para não acirrar os ânimos. Então, seguindo o combinado, nesse jogo em Sena os xapurienses fizeram um a zero no início do primeiro tempo e recuaram para segurar o resultado. Ficaram só tocando a bola.
Apesar disso, porém, segundo o relato do Vaisquerê, os torcedores de Sena, lá pelas tantas, começaram a jogar pedras no pessoal de Xapuri e mostrar facas na cintura. Aí, faltando cinco minutos para o fim do jogo, veio a ordem: – Deixa os caras virarem! Dito e feito. Jogo perdido e a pele intacta.
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